21 de fev de 2015

A importância dos erros nas ciências

Refletindo um pouco sobre minha profissão de professor de Ciências, fiquei pensando como as vezes sem querer, passamos aos alunos a ideia de que eles devem absorver os conteúdos, e em seguida apenas responderem corretamente às perguntas que fazemos nas provas. Isso pode dar a impressão de que em todas as áreas os conhecimentos se encontram totalmente prontos, e aos educandos só restaria o trabalho de entenderem como eles foram adquiridos ao longo da História.
Ensinamos as crianças como se as respostas corretas fossem mais importantes do que as perguntas corretas, sendo que o que deveríamos fazer na verdade é insentivá-las a formularem suas próprias perguntas. Não saber sobre algo é natural e mais pais e mais professores deveriam estar dispostos a dizer: Eu não sei a resposta. Vamos descobrir como podemos obtê-la.
Eu penso que é isso que tínhamos que ensinar nas escolas. A ciência é um processo de tentar entender este mundo complicado e descobrir o como e o porque das coisas serem como são, através do levantamento de hipóteses e testes para confirmá-las ou não. Não só pesquisadores se utilizam deste método, na física e nas ciências, mas todos nós, no dia-a-dia, em qualquer problema que enfrentamos, por exemplo quando tentamos fazer funcionar um computador ou celular, ou ao procurarmos o local de um vazamento de água em nossas casas. Isto ocorreu comigo recentemente. Em meu apartamento, aparecia uma poça de água embaixo da pia da cozinha, mas minha esposa não sabia me informar como ela se formava. De onde vinha o vazamento? Seria de trás, pela parede, ou seria pela cuba de inox, ou até mesmo do ralo no chão? Considerei inicialmente todas as possibilidades. Aos poucos, fui abandonando hipóteses incorretas e consegui descobrir que o vazamento vinha de trás, através de um vão entre a pia e a parede. 
Utilizei no local, um rejunte branco e silicone, mas o vazamento continuou, embora tivesse diminuído. Fui fechando o cerco e experimentei colocar uma camada maior de rejunte e silicone, para que criasse uma "rampinha" entre a pedra da pia e a parede. Consegui resolver o problema e o vazamento cessou.

Mesmo quando alguém nos conta alguma coisa, precisamos estar "armados" com o Método Científico para não acreditarmos em qualquer bobagem. Outro dia, uma aluna me disse: "Professor, se uma mulher sonha que está grávida de gêmeos, significa que terá um lucro financeiro em breve". Tentei então fazê-la associar de algum modo um fato com outro. Para mim, é fácil perceber que uma coisa não tem absolutamente nenhuma ligação com a outra, mas no caso das pseudociências, as pessoas parecem ter uma queda a acreditar em algo que, para elas, não conseguimos lidar por falta de provas ou evidências, mas que julgam ter um fundamento sobrenatural ou espiritual, campo no qual a ciência se nega ou não teria capacidade de realizar pesquisas. Mas é justamente por causa desta falta de evidências que a ciência não entra neste jogo.

O filósofo Sócrates dizia: "Só sei que nada sei". Esta frase não deve ser interpretada ao pé da letra, pois todos nós sabemos de uma forma ou de outra sobre alguma coisa, mas ela serve para entendermos a humildade deste grande pensador, que preferia instigar sempre o pensamento, formando eternos aprendizes, em busca de um aprimoramento na maneira de compreender diversos assuntos da melhor forma possível.

A necessidade de saber e responder tudo certo, da maneira como nos foi ensinada,  para  que não falhemos quando perguntados, dando-nos a sensação de sermos melhores do que os outros, pode ter ramificações extremamente prejudiciais para a busca do conhecimento. A ciência progride por testar ideias fora do estabelecido, refutando as concepções anteriores e, gradualmente, chegando mais e mais perto da verdade no centro do fenômeno a ser estudado.

Fonte:
http://physics.about.com/b/2014/05/30/importancefailure.htm

9 de fev de 2015

Consumir álcool: uma necessidade evolutiva


Nosso gosto por álcool já dura milhões de anos. Agora, uma pesquisa genética revela novidades sobre este antigo relacionamento humano.

Um novo estudo descobriu que os nossos antepassados adquiriram a capacidade de digerir o álcool há cerca de 10 milhões de anos, entre um ancestral comum a humanos, chimpanzés e gorilas, e certamente bem antes de nós aprendermos a fabricá-lo. Isso sugere que o álcool tornou-se parte da dieta humana muito mais cedo do que se pensava, e de uma forma que teve implicações significativas para a sobrevivência da espécie humana.

Os seres humanos carregam com eles as assinaturas genéticas de seus hábitos de alimentação ancestrais. As variantes genéticas que tornam novas fontes de alimento disponíveis podem proporcionar enormes oportunidades para aqueles que as possuem.

A tolerância ao álcool pode ter tornado possível comer frutas muito maduras que tinham caído no chão e começado a fermentar naturalmente. Esta adaptação teria fornecido aos nossos antepassados uma fonte de alimento abundante para a qual havia poucos concorrentes.


O metabolismo do álcool após a ingestão é um processo complexo que envolve uma série de enzimas diferentes. A maior parte que é ingerida é discriminada no intestino e no fígado. O novo estudo centrou-se na enzima ADH4 pelo fato de ela ser abundante no intestino. Testes indicaram que a ADH4 encontrada em seres humanos, gorilas e chimpanzés é 40 vezes mais eficiente na metabolização do álcool do que a forma encontrada em espécies mais primitivas.

Como os seres humanos dependem de ADH4 como seu principal meio de digerir o álcool, eles também são suscetíveis às ressacas. Enzimas metabolizam o álcool, convertendo-o em um outro produto químico, o acetaldeído, que provoca o rubor da pele, dor de cabeça e outros sintomas desagradáveis da ressaca.

E agora, para quem quiser assistir, uma reportagem mostrando animais africanos ficando bêbados pelo consumo de frutas fermentadas.





26 de jan de 2015

O custo real da carne

Somente as preocupações com a saúde não vão conseguir reduzir o crescente consumo de carne no mundo. Talvez as preocupações com o meio ambiente sejam mais convincentes.

Apenas poucas décadas atrás, uma refeição contendo carne era tida como um raro prazer. Nos dias de hoje, a maioria de nós ocidentais come carne quase todos os dias, e muitos a consomem em todas as refeições.

Até mesmo as pessoas provenientes de culturas, digamos, menos carnívoras, estão também mudando seus hábitos. Na China, por exemplo, comer carne tornou-se atualmente uma aspiração.

A produção de carne no mundo subiu de 78 milhões de toneladas por ano em 1963, para 308 milhões de toneladas em 2014.












Deixando de lado as questões em torno da moralidade de se comer animais, o problema é que o planeta não pode suportar esse crescente apetite. A área de pastagem de gado usada no mundo já corresponde a 26% das terras livres disponíveis para esta finalidade, e a indústria da carne é responsável por 15% de todas as emissões de gases do efeito estufa.

Ao longo de décadas, o preço da carne foi diminuindo devido às práticas agrícolas cada vez mais eficazes. Ao mesmo tempo que isso é bom para os consumidores, é ruim para o meio ambiente, em termos de poluição, resistência aos antibióticos, bem como para o clima - e, é claro, principalmente para os próprios animais sacrificados.

Seria viável aumentar o preço da carne para diminuir o consumo?

Os governos têm conseguido reduzir o consumo de álcool e tabaco através dessa prática, mas um "imposto penalizador" sobre a carne não teria uma justificativa tão contundente quanto à estabelecida para quem consome bebidas alcoólicas ou fuma. É claro que há muitas evidências sobre possíveis ligações entre altos níveis de consumo de carne, e a propensão em adquirir câncer e doenças cardíacas. Talvez, uma opção viável seria que os governos reduzissem os subsídios agrícolas que sustentam a produção da carne, mas poucos deles resistiriam à pressão contrária dos envolvidos no setor de negócios agropecuários, e até mesmo do próprio mercado consumidor.  

A Persuasão pode funcionar melhor do que a coerção. 
No Reino Unido e nos Estados Unidos, preocupações com a saúde já reduziram o consumo de carne vermelha e processada. Nas últimas orientações dietéticas emitidas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estão sendo abordados os efeitos sobre o meio ambiente, bem como à saúde. A indústria não vai gostar, mas o público pode achar interessante conhecer melhor os benefícios de adotar uma dieta baixa em carne e gorduras.

Fontes:
http://www.newscientist.com/article/mg22530052.900-the-world-pays-too-high-a-price-for-cheap-meat.html?utm_source=NSNS&utm_medium=SOC&utm_campaign=hoot&cmpid=SOC%257CNSNS%257C2014-GLOBAL-hoot#.VMadsv7F9PK

http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/meio-ambiente/producao-de-carne-bovina-tem-custo-ambiental-maior-do-que-frango-porco-13331946

18 de jan de 2015

A Teoria de Tudo - o Filme

Esta semana consegui assistir o filme A Teoria de Tudo, baseado na biografia de Stephen Hawking, cientista que no último dia 8 de janeiro completou 73 anos de idade. O filme mostra como o jovem astrofísico, interpretado pelo ator Eddi Redmayne - indicado ao Oscar de 2015 - fez descobertas importantes sobre o tempo, além de retratar o seu romance com a aluna de Cambridge Jane Wide, interpretada pela atriz Felicity Jones - também indicada ao Oscar - e a descoberta de uma doença motora degenerativa, quando ele tinha apenas 21 anos. A estreia nos cinemas do Brasil será no final de janeiro, mas quem quiser assistir antes, recomendo o site:
http://www.filmesonlinegratis.net/assistir-a-teoria-de-tudo-legendado-online.html
O filme é repleto de cenas muito comoventes, como realmente foi a vida de Hawking, mas em uma das últimas cenas, quando ele já se comunicava através de uma voz sintetizada por um computador, durante uma palestra, ele responde a uma pergunta vinda da plateia. Achei tão genial a resposta que até fiz questão de transcrevê-la aqui. Vejam:

Pergunta: Prof. Hawking. O senhor declarou não acreditar em Deus. O senhor tem alguma filosofia de vida que o ajuda?

Resposta de Hawking: É claro que somos apenas primatas evoluídos, vivendo em um planeta pequeno que orbita uma estrela comum, localizada no subúrbio de uma de bilhões de galáxias, mas desde o começo da civilização as pessoas tentam entender a ordem fundamental do mundo.
Deve haver algo muito especial sobre os limites do universo, e o que pode ser mais especial do que não haver limites?
Não deve haver limites para o esforço humano.
Somos todos diferentes.
Por pior que a vida possa parecer, sempre há algo que podemos fazer em que podemos obter sucesso.
Enquanto houver vida, haverá esperança.

No final, a plateia o aplaude de pé pela resposta. Vou deixar para os leitores do blog a interpretação do que Hawking deve ter querido dizer. Eu já tenho a minha.

16 de jan de 2015

O meu Terço Sagrado

Este não é um artigo religioso, apesar de o título sugerir isso. Eu gostaria de falar sobre um benefício que recebo todos os anos nesta época do mês de janeiro, correspondente a um terço das minhas férias.
Há sempre uma história interessante sobre o surgimento de alguns termos que usamos. Vejamos primeiramente a origem do termo férias. Fazendo uma pesquisa, encontrei uma explicação, através da qual inclusive podemos entender porque a língua portuguesa se diferenciou de outras, ao adotar o termo "feira" para dias da semana.

Em minhas aulas, quando ensino história da Astronomia, costumo informar aos alunos que pelo menos três línguas estrangeiras, a inglesa, a alemã, e a espanhola mantêm tradições de mais de 6000 anos, quando se referem aos dias da semana. Em aproximadamente 4000 anos antes de Cristo, os antigos Mesopotâmios resolveram dividir a semana em sete dias e atribuir a cada dia o nome de um dos astros conhecidos - por serem os únicos vistos a olho nú - na época, que eram: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Sol e Lua. Daí surgiram - e preservaram-se - por exemplo, no inglês, Saturday, e Sunday, no alemão, Sontag, e Montag, e no espanol, Miércules, e Lunes. Na língua portuguesa, por questões religiosas, decidiu-se seguir os nomes usados para férias (feiras). Vejam o que a Wikipedia nos diz sobre o surgimento do termo férias:
Férias provém do latim 'feria, -ae', singular de 'feriae, -arum', que significava, entre os romanos, o dia em que não se trabalhava por prescrição religiosa.
A palavra latina encontra-se também na denominação dos dias da semana do calendário elaborado pelo imperador romano Constantino, no século III d.C., que os santificou com o nome de 'feria' e o sentido de comemoração religiosa: 'Prima feria, Secunda feria, Tertia feria, Quarta feria, Quinta feria, Sexta feria e Septima feria'. No século IV, ainda por influência da Igreja, 'prima feria' foi substituído por 'Dominicus dies' (dia do Senhor) e 'septima feria' transformou-se em 'sabbatu', dia em que os primeiros judeus cristãos se reuniam para orar. A língua portuguesa foi a única a manter a palavra 'feira' nos nomes dos dias de semana.
Hoje em dia, o direito das férias está diretamente ligado à saúde. O objetivo é proporcionar descanso ao trabalhador após um determinado período de atividades. As férias não podem ser suprimidas nem mesmo por vontade própria, devendo ser usufruído no mínimo 1/3 do período a cada ano.
Eis alguns fundamentos que norteiam os objetivos das férias: O fisiológico, relacionado ao cansaço do corpo e da mente; o econômico, no sentido de que o empregado descansado produz mais; o psicológico, que relaciona momentos de relaxamento com o equilíbrio mental; o cultural, segundo o qual o espírito do trabalhador, em momentos de descontração, está aberto a outras culturas; o político, como mecanismo de equilíbrio da relação entre empregador e trabalhador; e o social, que enfatiza o estreitamento familiar.

Onde uso meu terço?
O recebimento correspondente a 1/3 do salário é um direito garantido pela Constituição Federal de 1988. Os trabalhadores recebem este dinheiro para usufruirem suas férias, melhorando os fundamentos que norteiam os objetivos delas citados anteriormente. Em resumo, aumentar a cultura, descansar o corpo e equillibrar a mente. Os professores de hoje em dia precisam deste descanso, pois durante o ano, o desgaste psicológico, físico e mental é muito grande. No entanto, no meu caso, geralmene o que sempre acabo fazendo com este terço do meu salário é cobrir os gastos excessivos de final de ano, ajudar a pagar IPVA, o seguro do carro, e outros encargos, então fico sempre contando com ele, que nesta época vêm em boa hora, e é por isso que o considero sagrado. E bendito seja quem pensou primeiramente em conceder este benefício que sempre ajuda a salvar a minha pele nesta época do ano.

Fontes:
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