11/07/2014

Uma nova unidade de velocidade: comprimento do corpo por segundo

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Detalhe do Print Screen do facebook
Ontem, no facebook (*), deparei-me com uma chamada para um artigo da Scientific American magazine (Print ao lado), em que eles fazem a seguinte pergunta:

Se um guepardo, um ácaro e um humano disputassem uma corrida, adivinhe quem ganharia?

Na certa eles esperam que as pessoas respondam que é o guepardo, mas se for adotada uma unidade específica de medida de velocidade, diferente das tradicionais, levando em consideração os comprimentos dos corpos dos corredores, chegaremos à conclusão de que um certo ácaro, o Paratarsotomus macropalpis, do tamanho de um grão de gergelim, seria o mais veloz de todos. Por este motivo, ele está sendo considerado atualmente por biólogos como o animal terrestre mais rápido do mundo.

Paratarsotomus macropalpis, Usain Bolt, e o Guepardo
A figura abaixo, do artigo da  Scientific American, mostra uma representação em que Usain Bolt e um guepardo (cheetah) seriam hipoteticamente reduzidos ao tamanho do ácaro P. macropalpis, para disputarem uma corrida em volta de uma rosquinha, de uns 10 cm de diâmetro. Pode-se ver facilmente na figura que, se seguíssemos apenas a unidade de medida de velocidade definida como body lengths per second (comprimento do corpo por segundo), Bolt e o guepardo teriam percorrido pequenas distâncias relativas, depois que o ácaro já tivesse completado uma volta na rosquinha.
Simulação de uma corrida em volta de uma rosquinha, considerando apenas a unidade de velocidade body lengths per second (comprimentos do corpo por segundo). Usain Bolt e o guepardo estariam reduzidos ao tamanho do ácaro. Reparem que no caso do ácaro, não colocam a velocidade em miles per hour (milhas por hora), somente em bl/s (body length per second).
É óbvio que se usarmos as unidades mais tradicionais da Física para as velocidades, sem levarmos em consideração os comprimentos dos corpos, o guepardo continua sendo o animal terrestre mais rápido do mundo. Isso porque ele pode atingir uma velocidade aproximada de até 108 km/h.
Olhando a foto (ao lado), que mostra o ácaro Paratarsotomus macropalpis em uma escala de 1 cm, subdividida em 10 partes, podemos dizer que ele tem um comprimento de mais ou menos 3,0 mm. Sabe-se também que a velocidade deste ácaro, é de 322 body lengths per second (bl/s). Multiplicando-se as medidas (3 X 322), concluímos então que isto dá 966 mm/s, ou seja, quase 1 m/s. Isto corresponde, nas unidades usuais de velocidade, a cerca de 10 vezes menos a velocidade de Usain Bolt (10 m/s), e em torno de 30 vezes menos a do guepardo (30 m/s).

No entanto, adotando-se a unidade bl/s, Bolt como percorre apenas 6 comprimentos de seu corpo por segundo teria velocidade de 6 bl/s, e a do guepardo, seria de 16 bl/s, e desta forma, em uma suposição deste tipo, eles ficariam bem atrás do ácaro.

O que eu acho disso tudo?
No meu ponto de vista, é preciso tomar cuidado com as conclusões que podem ser tiradas somente olhando-se rapidamente algumas figuras, como a colocada na chamada do artigo da Scientific American, apesar de que eles deixam bem claro no texto que a comparação deve ser feita levando-se em consideração os tamanhos dos animais.
Não há dúvida, portanto, de que quando queremos comparar quaisquer grandezas físicas devemos sempre observar atentamente a unidade de medida que está sendo empregada.

Não sei se deveria concordar com esta nova forma de medir e de comparar as velocidades entre bichos de dimensões e pesos tão diferentes entre si. É notório que os efeitos da gravidade ou resistência do ar sobre os ácaros são bem diferentes daqueles sofridos pelos animais de maior porte, por exemplo. Outra coisa: Como fica a questão de qual deve ser o comprimento adotado do corpo do animal? O corpo do guepardo, por exemplo, e acredito também que do ácaro em questão, durante a corrida, ficam em uma posição mais horizontal, bem diferente da posição de uma pessoa correndo. Então não deveria ser levado em consideração esta diferença na adoção do comprimento do corpo a ser usado nos cálculos?

Eu acho que se os pesquisadores continuarem a identificar e estudar a velocidade de insetos ou ácaros cada vez menores, acredito que adotando-se esta unidade de velocidade bl/s nas comparações, provavelmente surgirão mais candidatos a serem escolhidos como o animal mais rápido do mundo, e ficaremos conhecendo alguns até então desconhecidos e anônimos micro-organismos, como é o caso deste ácaro em questão, que por hora pode aproveitar bem seus momentos de fama mundial.

Fontes:
http://www.sciencedaily.com/releases/2014/04/140427191124.htm
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2616013/The-fastest-animal-world-Tiny-Californian-mite-beat-cheetah-size-least.html
http://www.polyteck.com.br/blog/qual-e-o-animal-mais-rapido-da-terra/

(*) Sim, caro leitor, no facebook ainda há coisas boas sobre ciências e cultura. 

22/06/2014

Ciência, luz, religiões e verdades

6 comentários:
Eu tentei encontrar uma luz que me ajudasse a pensar em algo interessante sobre Física para colocar aqui no blog, após um longo tempo sem postar, devido à correria no meu novo emprego, e no final das contas, acabei optando por falar um pouco sobre religião, este assunto que muitos consideram indiscutível, mas que na prática tem sido o causador de intermináveis debates, revelando grandes divergências de pensamentos devido às várias maneiras com que cada um interpreta e adota, ao seu modo, diferentes filosofias de vida.
Para mim, o problema é que não consigo ficar quieto quando vejo que algumas destas doutrinas começam a se meter em áreas que a ciência já demonstrou ter muito maior domínio de causa.

É certo que os pilares básicos da ciência, que a humanidade levou tanto tempo para edificar, através de observações críticas e contínuas, das anotações dos erros e acertos, das tentativas e experiências bem ou mal sucedidas, a fim de buscar uma solução ou explicação para algo que tenha em algum momento nos incomodado ou desafiado ao longo da nossa história, já deram provas suficientes de que são muito profundos e consistentes. Como não concordar, por exemplo, que as contribuições da ciência foram de grande valia para ampliarmos a nossa qualidade e expectativa de vida?
Sendo assim, faço força, mas não consigo entender por completo, como é que alguém que tenha tido a oportunidade de estudar e aproveitar pelo menos um pouco das coisas positivas passadas pela escola que frequentou, possa escolher seguir ou praticar rituais de uma determinada religião que advoga explicações, na minha opinião, tão ingênuas, simplistas e até mesmo diria, infantis, para as questões centrais que há muito tempo angustiam a humanidade, tais como: Qual a origem das espécies? Como surgiu o Universo? Qual o significado de nossas vidas? Existe alguma coisa após a morte?

Usando na maioria das vezes argumentos baseados apenas no que está escrito em um ou outro livro qualquer, que consideram sagrados, e cujas colocações e inserções são consideradas como dogmas inquestionáveis, cada uma dessas religiões têm as suas diferentes respostas a estas questões angustiantes.
Para que entendam melhor por que eu acho que as pessoas poderiam evitar ficar durante boa parte de suas vidas, moldando seus pensamentos de acordo somente com o que está escrito nestes livros, vou usar ideias de um antigo pensador árabe, citado no 5º episódio da nova série Cosmos, que revi recentemente. Para os leitores que ainda não sabem, todos os episódios desta série, exibidos até agora no Brasil, estão sendo disponibilizados em um site chamado Universo Racionalista. Quem quiser, clique aqui para assisti-los (senha: 1 2 3 4).

Cosmos - Escondido na Luz
Neste episódio, o astrofísico Neil deGrasse Tyson fala sobre os estudos de Newton, Herschel, e outros cientistas, com relação às propriedades da luz. Cita o exemplo da câmara escura, assunto muito interessante e que eu já postei aqui, e o infravermelho, que eu escolhi não por acaso para dar título a este meu blog, explicando de que maneira as descobertas e investigações dos fenômenos luminosos abriram novos horizontes, possibilitando um melhor entendimento sobre as composições das estrelas e galáxias distantes, e permitindo que determinássemos até mesmo a própria consistência de todo o cosmo.
Alhazen (965 -1040 dC)
Há um trecho narrado, que eu gostei tanto de ouvir, que até fiz questão de transcrever aqui, e cujas palavras são atribuídas a um árabe chamado Alhazen (ao lado), que teria sido um dos primeiros a adotar uma postura crítica de raciocínio que se aproximava muito da usada no que conhecemos atualmente como o Método Científico, a fim de obter a verdade. Leiam:
"Encontrar a verdade é difícil, e o caminho é acidentado. Como buscadores da verdade, o melhor é não julgar e não confiar cegamente nos escritos dos antigos. É preciso questionar e examinar criticamente o que foi escrito, por todos os lados. É preciso aceitar apenas o argumento e a experiência, em vez do que qualquer pessoa diz, pois todo ser humano é vulnerável a todos os tipos de imperfeição. Como buscadores da verdade, devemos suspeitar e questionar nossas próprias ideias ao investigarmos fatos, para evitar preconceitos ou pensamentos descuidados. Sigam este caminho e a verdade vos será revelada."

Bacana, não acham? Este é um modo de pensar sobre todas as coisas, que a mim aparenta ser um dos mais compensadores de serem praticados. Essas palavras de Alhazen, mesmo que as vezes soem até meio proféticas, ou que pareçam ter sido redigidas por um apóstolo em algum canto do mundo, é o tipo de filosofia que não encontra um paralelo nos livros considerados doutrinadores. Lá não deve haver espaço para semelhante propaganda a favor do livre pensamento. Lá, os benefícios aos fiéis seguidores são fáceis de serem identificados e entendidos, desde que os deveres, datas, e frequência aos rituais não sejam questionados, e ao invés disso, sejam pontualmente seguidos. Além do mais, não se pode contrariar as tradições religiosas seculares, pois sendo elas já tão duradouras, provenientes de nobres costumes e boas culturas, não poderiam estar equivocadas, não é verdade?

Tempo, costumes e tradições, eternizando a "verdade"
Este é um problema das religiões tradicionais. Tenho a sensação de que cada vez mais a ciência, pelo fato de defender, na maior parte do tempo, ideias tão diferentes das que professam os intocáveis sagrados escritos, inevitavelmente acaba entrando em rota de colisão com as religiões mais populares e mais difundidas no mundo. E o que é pior, em assim sendo, neste eterno debate, quando um dos dois lados se mostra intolerante, justamente por muitas vezes não ser permitido aos adeptos, reavaliarem uma determinada corrente de pensamento, começam os bate-bocas, brigas, radicalismos, extremismos, que não são bons para nenhuma das duas, ou às vezes mais partes envolvidas.
E agora, para mostrar por que fico chateado quando vejo o que as religiões fundamentalistas provocam, e os absurdos em que acreditam os seus adeptos, deixo este vídeo sobre as críticas e censuras feitas nos EUA, ao seriado Cosmos, que na minha opinião foi um dos mais agradáveis presentes que os amantes da ciência puderam receber neste ano.

 
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